sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Mercadão da Cidade Morena

Mercadão Municipal resguarda identidade histórica e cultural de MS
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010     Escrito por: Lucas Junot 

Um dos símbolos da história de Campo Grande, o Mercadão começou a ser construído em 1957 e foi inaugurado no dia 30 de agosto do ano seguinte. Originalmente uma “feira livre”, até a década de 50 o mercadão municipal cerceava uma grande área entre a avenida Afonso Pena e a rua Sete de Setembro, ao longo dos trilhos da ferrovia Noroeste do Brasil. A primeira feira municipal da Cidade Morena, anos depois mudou-se para rua Antonio Maria Coelho, abrindo espaço para o início do Mercadão.

Em 2006 o antigo espaço foi revitalizado, o estacionamento foi ampliado, foram instaladas luminárias, além da reforma do telhado, que estava degradado pelo tempo. O Mercadão Municipal de Campo Grande representa, sobretudo, um eixo com a identidade histórica e cultural de uma cidade, de um estado, de um povo.

 Mercado Municipal Antonio Valente  Foto: Deurico/Capital News

Variedades de produtos gastronômicos, de artesanato, ervas medicinais, bebidas típicas, além da peixaria, que oferece aos domingos um disputado peixe assado, concentram no mesmo espaço modernidade e tradicionalismo. O local, que abriga diversidade de sabores, cheiros e cores, emprega cerca de 600 funcionários.

“Mercadão Municipal Antônio Valente”, assim é chamado o ponto turístico e marco comercial da história da capital do estado, que homenageia em seu nome o doador do terreno à prefeitura. No começo as mercadorias eram oferecidas sobre mesinhas e com tempo as bancas foram evoluindo.

As antigas mesinhas evoluíram para as bancas de aço  Foto: Deurico/Capital News

Jaqueline Pedrosa, de 25 anos, trabalha no mercadão há sete anos como gerente de uma das barracas de pastel mais tradicionais do local, ela afirma que gente de vários lugares vem conhecer os sabores sul-mato-grossense e para isso, segundo ela, o mercadão é parada obrigatória. “Vem muita gente de fora, gente de muito longe, ficam espantados com as combinações, mas adoram o sabor, tiram fotos do cardápio, simplesmente adoram”, disse.

Jaqueline Pedrosa, de 25 anos, trabalha no mercadão há sete  Foto: Deurico/Capital News

No mercadão é oferecida uma variedade gastronômica imensa e até curiosa. Pastéis de avestruz, guariroba, pequi, carne seca, queijo, paçoca, jacaré e até de feijoada. Jaqueline revela que, em média, são vendidos cerca de 600 pastéis por dia, mas que esse número chega a dobrar, apenas na banca em que trabalha.

Crislene, de 17 anos, trabalha há apenas oito meses no mercadão, mas já aprendeu os segredos de um produto muito importante para a cultura do Mato Grosso do Sul e da região, a erva mate. Os pioneiros no uso da erva mate foram os índios Guarani, que habitavam a região definida pelas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. “A erva tem suas aplicações de acordo com o tipo de paladar. Quanto mais grossa for a erva, mais suave será o sabor. Existem hoje ervas com sabor de menta, abacaxi, boldo e até tutti-frutti”, explica.

Crislene, de 17 anos, trabalha há apenas oito meses no mercadão  Foto: Deurico/Capital News

Dos 52 anos de idade do mercadão, Paulo Nakasato, de 67 anos, vive há 30 a rotina do local. Ele vende diversos tipos de doces. “Há 30 anos tiro meu sustento daqui, vendo meus docinhos e adoço a vida das pessoas, são todos típicos e produzidos aqui”, enfatiza. De acordo com ele “o doce daqui é o melhor”.

Paulo Nakasato, de 67 anos, vive há 30 a rotina do local Foto: Deurico/Capital News

Quem vai ao mercadão municipal se depara com uma maioria de comerciantes descendentes japoneses, mas há também muitos portugueses e paraguaios. Em um dos corredores está Teresa Japonesa, como gosta de ser chamada. Há 24 anos no mercadão, Dona Teresa vende ervas medicinais para quase todos os fins. Diabetes, pressão alta, gastrite, entre outras enfermidades, ela garante: “tudo se cura com a natureza”. “Eu gosto muito do meu trabalho, gosto de poder ajudar as pessoas e tenho que olhar pra dentro delas para poder indicar a erva certinha”, revela.

Há 24 anos no mercadão, Dona Teresa vende ervas medicinais  Foto: Deurico/Capital News

Maria Martins, de 65 anos de idade, comprava queijo no momento da reportagem e disse à reportagem do Capital News que freqüenta o mercadão há cerca de 40 anos. “Venho toda sempre comprar aqui, porque encontro os produtos caipiras que gosto, todos de muita qualidade e produzidos no nosso estado, aqui tem muito dos nossos costumes”, declarou.

Maria Martins, de 65 anos de idade, freqüenta o mercadão há cerca de 40 anos Foto: Deurico/Capital News

De acordo com a assessoria de imprensa da Associação dos Comerciantes do Mercado Municipal de Campo Grande (Associmec), normalmente, cerca de duas mil pessoas passam pelo local diariamente, o controle é efetuado pelo estacionamento, com capacidade para 160 veículos.

Do lado de fora do local, na Praça da República, Mato Grosso do Sul evidencia a sua identidade cultural indígena. Há mais de 20 anos as índias Terena comercializam artesanatos e produtos agrícolas das aldeias Cachoeira, em Miranda e Limão Verde, em Dois Irmãos do Buriti. 

Vanda Terena, vice presidente da associação indígena, conta que a feira gera receita para cerca de 100 famílias. “Nossos produtos são bastante procurados pelo povo daqui e pelos turistas, eles adoram a guavira, o pequi, o maxixe, o quiabo, gostam de tudo e levam bastante”, enfatizou.

Vanda Terena  Foto: Deurico/Capital News

Frutas e verduras, que parecem pintadas à mão, decoram as bancas como uma obra de arte, farináceos milimetricamente dispostos em sacos que parecem equilibrar-se, vidros de pimentas coloridas, arrumados lado a lado formando uma obra de arte abstrata, infindáveis produtos reunidos dentro de um grande galpão, um grande baú que resguarda a cultura do povo sul-mato-grossense.


Postar um comentário