quarta-feira, 22 de julho de 2015

Minha vida na Cozinha

De lamber os dedos!
Um pouco da minha história...


O ramo da gastronomia abrange várias áreas como a culinária e seus rastros culturais, as bebidas, a história e muitas outras. Mas sempre me perguntei: Por que nunca falam da sua relação com a alma e o destino? Parece um pouco sem nexo para quem está de fora, porém, para quem senti o que eu sinto, logo perceberá onde eu quero chegar. Por que será que Deus escreve certo por linhas tortas?

Lembro-me como se fosse hoje. O final do ano chegava e já sabia o meu destino, uma cidadezinha do interior do Mato Grosso do Sul chamada Caracol. Assim que eu pegava a estrada com a minha mãe já ia imaginando o que eu ia fazer assim que pisasse naquela terra, com aquele cheiro de fazenda, meio mato amadeirado, não sei se é isso, pois fica difícil até de pensar, afinal a alma dói... Aquele tempo não volta mais.

Assim que descia do carro, já ia correndo pelo pasto atrás das galinhas, porcos, carneiros, ou melhor, tudo que se movia na minha frente. Lembro que sempre chegava ao entardecer e somente no outro dia que iria começar as minhas aventuras. Abria os olhos, eram quase seis horas da manhã, mal me levantava e já me agarrava a um copo e partia em direção ao curral, onde meu tio estava tirando leite. Isso era automático, era mais forte que eu. Vontade incontrolável de tomar leite direto da fonte!
 Eu, no molde de um pequeno curioso, fazia de tudo naquela fazendo maravilhosa, mas o que mexia com a minha alma, com certeza, era ficar ao lado da minha tia, com o umbigo grudado no fogão à lenha, parecia imã. Fazíamos queijos, doces, matávamos galinha, porco, vaca, pescava, caçava. E a alma acabou de doer de novo... Lembro-me de uma galinha correndo a quase cem quilômetros por hora, era a galinha que eu girei o pescoço com toda força do mundo, na ânsia de matá-la e, quando a soltei, com a certeza de dever cumprido, me enganei feio, pois ela parecia mais viva que nunca (risadas).

Entretanto, a cena que realmente me marcou foi que tudo o que eu comia era seguido do leve toque da minha boca nos meus dedos e que eu repito incontrolavelmente há quase trinta anos. E quando me perguntam onde foi que começou a minha paixão pela gastronomia, sempre me vem várias respostas, mas hoje, sentado aqui na frente do computador, me veio à verdadeira resposta. Nasceu do ato de lamber os dedos.

Já fiz de tudo um pouco! E hoje, como chefe de cozinha, sinto que ainda não fiz nada, nem ao menos amadureci, pois na cozinha agimos como verdadeiros homens sem deixar de lado o espírito de criança. Nunca paramos de sonhar, de almejar algo novo, de tentar arrancar um sorriso de um cliente. Com isso tenho a certeza que conheço a minha história, sei como aconteceu, sei como está acontecendo, mas só não me pergunte do futuro, pois a cada dia escrevo uma página nova na minha história.

Ai eu me pergunto: você conhece a sua história? Conhece a receita do seu presente? Ou a medida exata para um futuro de sucesso? Reflita, sorria, viva e cozinhe muito.

Marcílio Galeano
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