De lamber os dedos!
O ramo da gastronomia
abrange várias áreas como a culinária e seus rastros culturais, as bebidas, a
história e muitas outras. Mas sempre me perguntei: Por que nunca falam da sua
relação com a alma e o destino? Parece um pouco sem nexo para quem está de
fora, porém, para quem senti o que eu sinto, logo perceberá onde eu quero
chegar. Por que será que Deus escreve certo por linhas tortas?
Lembro-me como se fosse
hoje. O final do ano chegava e já sabia o meu destino, uma cidadezinha do
interior do Mato Grosso do Sul chamada Caracol. Assim que eu pegava a estrada
com a minha mãe já ia imaginando o que eu ia fazer assim que pisasse naquela
terra, com aquele cheiro de fazenda, meio mato amadeirado, não sei se é isso, pois
fica difícil até de pensar, afinal a alma dói... Aquele tempo não volta mais.
Assim que descia do carro,
já ia correndo pelo pasto atrás das galinhas, porcos, carneiros, ou melhor,
tudo que se movia na minha frente. Lembro que sempre chegava ao entardecer e
somente no outro dia que iria começar as minhas aventuras. Abria os olhos, eram
quase seis horas da manhã, mal me levantava e já me agarrava a um copo e partia
em direção ao curral, onde meu tio estava tirando leite. Isso era automático,
era mais forte que eu. Vontade incontrolável de tomar leite direto da fonte!
Eu, no molde de um pequeno curioso, fazia de
tudo naquela fazendo maravilhosa, mas o que mexia com a minha alma, com certeza,
era ficar ao lado da minha tia, com o umbigo grudado no fogão à lenha, parecia
imã. Fazíamos queijos, doces, matávamos galinha, porco, vaca, pescava, caçava.
E a alma acabou de doer de novo... Lembro-me de uma galinha correndo a quase
cem quilômetros por hora, era a galinha que eu girei o pescoço com toda força
do mundo, na ânsia de matá-la e, quando a soltei, com a certeza de dever
cumprido, me enganei feio, pois ela parecia mais viva que nunca (risadas).
Entretanto, a cena que
realmente me marcou foi que tudo o que eu comia era seguido do leve toque da
minha boca nos meus dedos e que eu repito incontrolavelmente há quase trinta
anos. E quando me perguntam onde foi que começou a minha paixão pela
gastronomia, sempre me vem várias respostas, mas hoje,
sentado aqui na frente do computador, me veio à verdadeira resposta. Nasceu do
ato de lamber os dedos.
Já fiz de tudo um pouco! E
hoje, como chefe de cozinha, sinto que ainda não fiz nada, nem ao menos
amadureci, pois na cozinha agimos como verdadeiros homens
sem deixar de lado o espírito de criança. Nunca paramos de sonhar, de almejar
algo novo, de tentar arrancar um sorriso de um cliente. Com isso tenho a
certeza que conheço a minha história, sei como aconteceu, sei como está
acontecendo, mas só não me pergunte do futuro, pois a cada dia escrevo uma
página nova na minha história.
Ai
eu me pergunto: você conhece a sua história? Conhece a receita do seu presente?
Ou a medida exata para um futuro de sucesso? Reflita, sorria, viva e cozinhe
muito.
Marcílio
Galeano